3/02/2007

Faleceu o Fabuloso - BENTO




Manuel Bento, antigo guarda-redes do Benfica e da selecção nacional, faleceu ontem no Barreiro, aos 58 anos. O futebol português está de luto pelo desaparecimento de uma das suas grandes figuras, “uma referência”, como lhe chamou Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
Na noite de quarta-feira, Bento marcara presença na gala do 103.º aniversário do Benfica, no Casino Estoril. Conviveu com antigos colegas e amigos. Ontem ao início da tarde, o coração parou devido a uma crise cardíaca aguda. Estava em casa, sentiu- -se indisposto, foi conduzido ao Hospital de Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro, mas chegou ali já sem vida. O antigo guarda-redes já tinha tido alguns episódios clínicos relacionados com insuficiência cardíaca, que desta vez foi fatal.
O corpo está hoje em câmara ardente na capela da Igreja de Nossa Senhora do Rosário (a poucos metros da que foi a sua casa) e será cremado amanhã, pelas 19h00, no cemitério dos Olivais, em Lisboa.
Bento iniciou-se como jogador no Riachense, clube de uma localidade ribatejana situada a cinco quilómetros da Golegã natal, onde morava. Cumpria a distância de bicicleta, ganha com o suor da própria cara. Feitos os estudos obrigatórios, aos 15 anos deitou mãos ao trabalho, como pedreiro. As mesmas mãos que haveriam de lhe dar fama, anos mais tarde, a deter bolas ‘impossíveis’.
Os clubes da zona não demoraram a reparar no miúdo. Era pequeno mas tinha jeito. Disse não ao Torres Novas e ao União de Tomar. Apareceu o Sporting e seduziu-o. Durante três meses viveu no Lar do Jogador, tinha então 16 anos, mas certo dia teve uma desavença com um dirigente leonino. Tudo porque o Sporting andava a protelar o pagamento de 15 contos ao Riachense, pela sua carta de desobrigação. Não gostou e regressou a casa. Pouco tempo depois, Abílio Rodrigues, então presidente do Barreirense (e anos mais tarde dirigente do Benfica), prontificou-se a pagar os 15 contos. Bento assinou o primeiro contrato profissional.
Durante seis anos defendeu a baliza do Barreirense. Em 1969/70 teve a honra de substituir o mítico Lev Yashine, que não pôde marcar presença no Estádio da Luz, na festa de despedida de Mário Coluna. Pouco tempo depois o Benfica piscou-lhe o olho. Um namoro curto que deu em casamento na época de 1972/73. Estreou-se de águia ao peito no dia 22 de Abril de 1973, frente ao Farense (vitória por 5-0), dando início a 18 anos de grande fulgor.
Em 1976 assumiu-se como titular incontestado. Haveria de manter o estatuto por dez anos, com grande brilhantismo, no clube e na selecção nacional, assinalando exibições, num lado e noutro, que entraram para a história dos momentos de ouro do futebol português. Entre 1985 e 1986 esteve sem sofrer golos pelo Benfica durante 1290 minutos, o que representa mais de 14 jogos, nove dos quais para o campeonato nacional. Bento ganhou a veneração dos adeptos e o respeito dos adversários com um estilo muito próprio, nem sempre vistoso, no qual a eficácia se sobrepunha à elegância.
Tinha uma excelente atitude competitiva e um extraordinário sentido de colocação entre os postes. Mas o que mais impressionava era a extrema agilidade e a magnífica impulsão, pouco própria para um jogador com a sua estatura. Um dia confessou ao CM que mais do que as grandes vitórias e as boas exibições eram as derrotas e os frangos que realmente lhe deixavam marcas. Impressões digitais de um profissional de mão-cheia.
Dele dizem os antigos companheiros que era muito temperamental. Chamavam-lhe, por brincadeira, ‘pincel’. Todos lhe tinham, contudo, um enorme respeito. Não apenas por ter sido capitão durante várias épocas, mas acima de tudo pela postura dentro e fora do campo. A valentia e a capacidade de sofrimento eram um exemplo que os colegas procuravam imitar. Aos 38 anos, com todas as capacidades intactas, sofreu uma grave lesão, no Mundial do México. Não desistiu e regressou, passados alguns meses, aos relvados.
A despedida aconteceu no dia 20 de Maio de 1990, frente ao Belenenses. Com mais uma grande exibição. Tinha então 41 anos, quase 42. Após pendurar as chuteiras, o Benfica convidou-o a ensinar tudo o que sabia aos jovens guarda-redes da formação do clube. Esbanjar tal património seria um crime.
PERFIL
Nome: Manuel Galrinho Bento
Data de nascimento: 25 de Junho de 1948 (58 anos)
Naturalidade: Golegã
Posição: Guarda-redes
Clubes Riachense, Barreirense e Benfica. Representou o clube da águias desde 1972/73 até à época de 1989/90.
Palmarés: 8 campeonatos nacionais; 6 Taça de Portugal e duas Supertaças Cândido de Oliveira.
OS MOMENTOS DA CARREIRA
29/Set/1977 - Noite de penáltis na fria Moscovo
Na segunda mão da 1.ª eliminatória da Taça dos Campeões, Bento deu a qualificação ao Benfica após dois jogos de teimoso 0-0- No desempate por penáltis, Bento defendeu um e marcou o que garantiu a vitória.
15/Out/1980 - Escoceses viram homem-borracha
Era um jogo de qualificação para o Mundial. Em Glasgow. A Escócia era favorita. Mas Bento fez uma exibição tão espantosa que a imprensa britânica, no dia seguinte, lhe chamou ‘homem-borracha’. O jogo acabou 0-0.
23/Jun/1984 - Meia-final do Europeu de França
Portugal perdeu por 3-2 e ficou a seis minutos da final. Esteve a ganhar por 2-1 no prolongamento, que só foi possível devido a uma noite mágica. Michel Platini não o esquece.
16/Out/1985 - Carlão marcou Bento segurou
Num dos mais épicos jogos da história do futebol português, Bento estava lá. Foi na Alemanha, no jogo em que Carlos Manuel fez o golão que nos levou ao México. Mas quem depois segurou o 1-0 foi ele, Manuel Bento.
NÚMEROS
- 465 jogos realizados com a camisola do Benfica, durante 18 épocas, nas quais ganhou oito campeonatos nacionais e seis Taças de Portugal.
- 63 vezes internacional por Portugal. Estreou-se no dia 16 de Outubro de 1976, frente à Polónia e fez o último jogo no Mundial do México, em 1986.
- 1290 minutos sem sofrer golos, pelo Benfica, na década de 80, durante mais de 14 jogos, em três competições. Ainda hoje é um recorde no clube.
REACÇÕES
- Bento foi um jogador que prestigiou o futebol português e, por isso, o seu nome será recordado com carinho e admiração pelos portugueses. As minhas condolências - Cavaco Silva, Pres. República
- Um exemplo de carácter e personalidade que contribuiu para o prestígio do futebol e do desporto. É uma hora de luto e de pesar para o desporto - Laurentino Dias, Sec. Estado
- É um dia muito triste. O Benfica ficou muito mais pobre, assim como todo o desporto nacional, principalmente o futebol. Por isso, os sentidos pêsames à sua família - Luís F. Vieira, Pres. do Benfica
- É a perda de uma referência na área dos guarda-redes do futebol português. A selecção portuguesa e o futebol português devem-lhe muito - Gilberto Madaíl, Pres. da FPF
- É uma perda irreparável para a família benfiquista. Era uma das pessoas que mais sentia a camisola e incutia a mística do Benfica. Estamos tristes porque é um amigo que se perde - Nuno Gomes, Futebolista
- É um choque tremendo. Já não o via há três, quatro anos e ontem [quarta-feira] estivemos juntos na Gala do Aniversário do Benfica a recordar todos os momentos que passámos. Era um campeão - Toni - Treinador e antigo colega
- O Bento era um colega, um irmão, um familiar. Partilhámos muitos bons momentos e outros menos bons. Ele era capaz de ganhar quatro ou cinco jogos para nós. O Benfica perdeu um dos seus símbolos - Shéu, Secretário técnico do Benfica
- É um choque muito grande. Tinha um respeito enorme por ele. Marcou uma época e uma geração. Foi meu adversário e meu companheiro da Selecção, onde jogámos durante muitos anos - Manuel Fernandes, antigo jogador
- Desapareceu um grande desportista e um homem bom. Fui eu que o fui buscar ao Riachense, quando era presidente do Barreirense. Tinha ele 17 anos. Éramos amigos e sinto muito esta perda. Estou chocado - Abílio Rodrigues, Ex-dirigente
Mário Pereira
---fonte Correio da Manhã

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